sexta-feira, 26 de julho de 2013


MORRE O HERDEIRO DE LUIZ GONZAGA

Por Guaipuan Vieira*


  Em 1992 Dominguinhos esteve em Fortaleza-CE, cumprindo agenda de shows. Foi a oportunidade que tive de conhecê-lo pessoalmente e entrevistá-lo para a Rádio Pitaguary, programa Canto Sertanejo, apresentado por mim. Testemunhei a simplicidade, humildade daquele músico, decantado pela grande mídia, tido como herdeiro do trono musical de Luiz Gonzaga. Mostrou-se preocupado com o sanfoneiro nordestino, observando que muitos abandonavam a profissão por não viverem da arte. Falou do surgimento de novos ritmos, esclarecendo que o forró se mantém por ser uma cultura nordestina que encanta a todos, mas que o sanfoneiro não fica imune de aprimorar cada vez mais os seus conhecimentos.

VIDA & CARREIRA

   José Domingos de Moraes, Neném, ou seja, Dominguinhos, nome batizado por Luiz Gonzaga, por achar que não seria um bom nome artístico, nasceu em 1941 na cidade de Garanhuns-PE. Seu pai, o mestre Chicão, era sanfoneiro e afinador de fole, famoso naquela região. Dominguinhos aos 6 anos expressou o dom da música, tocando pandeiro. Aos 8 anos, com os irmãos Moraes, na sanfona e Valdomiro, na zabumba, formou o trio OS TRÊS PINGUINS, e passaram a tocar em feiras e hotéis na capital pernambucana. Em 1948, em uma de suas apresentações, no Hotel Tavares Correia, conheceu Luiz Gonzaga, que ficou impressionado ao vê-lo dominar bem aquele instrumento de sopro (acordeon). Luiz lhe deu dinheiro e seu endereço no Rio de Janeiro, expressando naquele gesto de nordestino irmão, que podia contar com seu apoio. Luiz era possuidor dessa grande qualidade humana. Dominguinhos vocacionado pela música, em 1950 começa a tocar sanfona de oito baixos, e inspirado no irmão mais velho, em 1952, passa a tocar acordeon. Mas a difícil vida no Nordeste sempre migrou muitos nordestinos para o sul do país, em busca de um uma vida melhor. Com Dominguinhos não foi diferente. Em 1954 segue com o pai e seus irmãos para o Rio de Janeiro, levando no bornal de esperança o endereço de Luiz Gonzaga. Tudo foi transcorrendo aos passos do destino. Seu pai, Chicão, recebeu de Luiz uma sanfona. Dominguinhos aos pouco foi se familiarizando com o novo mundo, sem deixar de visitar a casa de Luiz Gonzaga. No cenário artístico foi conhecendo grandes nomes da música nordestina, como Marinez, Zito Borborema e o Zabumbeiro Miudinho. Com os dois últimos chegou a criar o Trio Nordestino, e passou a tocar em circos e em arrasta-pés em alguns municípios daquele estado. Em 1964, gravou o primeiro disco FIM DE FESTA, pelo selo Cantagalo. Para alguns críticos da música, este disco descrevia sua identidade artística, ganhando notoriedade na arte. Em 1972, passou a ter nova experiência com outros estilos musicais, quando participa do show Índia, de Gal Costa, e Refazenda, de Gilberto Gil. Entre outros shows feitos a convite de diversos artistas da música popular brasileira, com Caetano Veloso, Chico Buarque, Sivuca, enfim, um artista reverenciado por todos.

MORTE


   A notícia da morte do exímio sanfoneiro, cantor e compositor, não pegou a população brasileira de surpresa, o músico há seis anos se tratava de um câncer no pulmão. Em 17 de dezembro de 2012, teve complicações, e foi internado às pressas na Unidade de Terapia Intensiva Coronariana do Hospital Santa Joana, no Recife. Em 13 de janeiro de 2013, a pedido da família, segundo a ex-mulher de Dominguinhos, a cantora e compositora Guadalupe Mendonça, foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, permanecendo até o seu falecimento que transcorreu dia 23 de julho deste ano, aos 72 anos, deixando uma rica bagagem cultural e a conquista do prêmio Grammy Latino, em 2012.

HOMENAGEADO POR ARTISTAS

     Nos últimos dias venho acompanhando via parabólica, a programação da TV Nordeste, no Recife. Ontem (24), transmitiram cenas de homenagens a Dominguinhos, feita por diversos músicos no Festival de Inverno, realizado na Veneza brasileira. A TV foi às ruas da grande cidade e ouviu o povo cantar os sucessos do ilustre filho pernambucano. Entrevistou Genival Lacerda, que foi com Luiz Gonzaga, padrinho de casamento desse sanfoneiro cultuado por seu povo. A compositora e cantora Anastácia, lamentou a perda do amigo e falou das composições feitas em parceria. Ressalva-se que o músico sempre fez questão de dizer que aprendeu a compor com Anastácia. Não faltaram os versos da literatura de cordel, escrito pelo poeta pernambucano José Evangelista. Em Fortaleza, o poeta de Tauá, Paulo de Tarso, foi rápido, escreveu O ENCONTRO DE DOMINGUINHOS COM GONZAGÃO LÁ NO CÉU, com versos que descrevem a bagagem cultural desse que influenciou ao logo da carreira, gerações de músicos pelo Brasil.

“Era vinte e três de julho 
De dois mil e treze o ano
 Nosso mestre Dominguinhos 
Subiu ao Pai soberano 
Foi fazer festa no céu 
Longe de qualquer tirano.”

 “Grande nome da sanfona 
Dominguinhos foi valente 
No começo dessa noite 
Já deixou o céu contente 
Encontrou-se com Gonzaga 
Jesus estava presente.”   

    Do Rio de Janeiro recebi da poetisa Dalinha Catunda, cearense de Ipueiras, esta estrofe do cordel A PARTIDA DE DOMINGUINHOS: 

 Uma sanfona emudece 
Um sanfoneiro partiu. 
Quem Dominguinhos ouviu 
A sua voz não esquece.
O seu canto além de prece,
Foi encanto e louvação, 
Encantou serra e sertão
Quem de Lua foi herdeiro, 
Partiu nosso sanfoneiro 
Partindo meu coração.

   O  poeta Pardal Presidente do CECORDEL(Fortaleza), escreveu: 


Gonzagão um dia disse:
Um herdeiro eu vou deixar
Pois o fole da sanfona
Só ele sabe puxar
Dominguinhos, este o herdeiro,
Hoje no céu é o primeiro
Pra com seu mestre tocar. 25/07/2013

A poetisa Vânia Freitas(Fortaleza-CE), enfatizou: 

As lágrimas do teu povo
Vão rolar pelo forró.
A sanfona vai gemer
Com saudade do xodó
De Domingos, sanfoneiro,
Que alegrou o brasileiro
Com a força do seu gogó. 25/07/2013

No impulso da emoção, não poderia deixar passar em branco, a minha homenagem ao saudoso mestre do acordeon, através do cordel UM ADEUS AO HERDEIRO DE GONZAGÃO:

Estava ouvindo uma rádio
Que é rica de informação
Quando ouvi tocar um xote
E fizeram a narração
Como cortando caminhos
Disseram, aí, Dominguinhos
Para o céu fez ascensão.

Fui ouvir outra emissora
E essa sendo nordestina
Era feito um especial
No som de uma concertina
Chico Paes tocava forte
Pro sanfoneiro do norte
Uma homenagem que assina.

Concretizava a notícia
Tristonha naquele dia
Enlutando a nossa música
E um trono que se esvazia
Pela peculiaridade
De rica expressividade
Que a deusa musa extasia.

    Certamente uma “chuva” de cordel se espalha por todo o Nordeste. É a notícia em versos, decantado história e acontecimento, através da Literatura de Cordel, um informativo que permanece em evidência no Nordeste Brasileiro.

 *Poeta e graduado em História - Sábado(27),Guaipuan prestou  homenagem a Dominguinhos, na RÁDIO PITAGUARY - AM -1340 KHZ  http://radiopitaguaryam.com/

ACESSE  também:   http://www.cecordel.com.br/

CECORDEL 25 ANOS

sexta-feira, 21 de junho de 2013

BANCA NACIONAL MAIS UMA VEZ APREENDIDA (HÁ UM ANO)



 A CULTURA POPULAR PEDE SOCORRO

UM APELO AOS QUE VALORIZAM A CULTURA POPULAR


BANCA NACIONAL DO CORDEL MAIS UMA VEZ APREENDIDA
VAI FAZER UM ANO



            Esta é a BANCA NACIONAL DO CORDEL, um equipamento do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste – CECORDEL.
O CECOEDEL é uma entidade cultural, fundada em agosto de 1987.  Há mais de 25 anos, nossa entidade produz, incentiva e luta por mais valorização da cultura popular expressa no cordel e no repente do cantador.
A entidade nasceu de um grupo e poetas que se reunia ao redor de uma banca no centro da antiga praça do Ferreira, em 1987. Quando a praça passou pela reforma, a Fundação Cultural de Fortaleza, que lá funcionava, não teve interesse para instalar um box de cordel, que ficaria sob a responsabilidade do Cecordel. Transferiram a banca para praça dos Voluntários, onde ficou até 1994, quando foi levada pelo caminhão da Emlurb.
            Tentamos junto à SER II, a legalização da banca e a sua volta mas nada foi feito.
      Fomos atrás da inciativa privada para o patrocínio de uma nova banca. Conseguimos a adesão da Fundação Demóçrito Rocha, que nos doou a banca. O poeta Barros Pinho (in memorian), então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, nos cedeu um espaço no Largo dos Correios, no centro. Inauguramos a Banca (v. Foto). Como o lugar se  tornou insuportável, devido o barulho, fumaça de churrasco, solicitamos à administração municipal para transferir para a praça vizinha – Valdemar Falcão. Isso em 2010. Ficou lá até julho de 2012. Mês em que foi apreendida pela SER- Centro. Dia 13/07/2012, Gerardo Frota (Pardal), presidente do Cecordel, protocolou nessa secretaria, solicitando a devolução da banca. O que foi atendido
Em 31/7/2012, foi dada entrada no protocolo, dessa mesma secretaria a solicitação do espaço para que a banca volte a funcionar, sendo procedida a sua regulamentação a fim de que não seja repetido este mesmo constrangimento. O protocolo desta solicitação está sob o n. 1707155938910/2012.
            Com este breve histórico, o Cecordel  está procurando alguma pessoa amiga, autoridade que seja sensível a esta causa a fim de que possa nos ajudar junto ao secretário da SER-Centro a reabilitar nossa Banca. A cidade de Fortaleza é quem ganha com a presença  da banca de cordel numa de suas  praças, mostrando com isso que valoriza a cultura do seu povo.


Gerardo Carvalho Frota (PARDAL)
         Presidente CECORDEL

domingo, 9 de junho de 2013

JUVENAL EVANGELISTA SANTOS
UM PROPAGANDISTA DO VERSO 


Por Guaipuan Vieira

 Até o final da década de 90, o poeta repentista Juvenal Evangelista Santos, vendia em Teresina, Piauí, em uma Kombi usada, cordéis e fitas de cantoria. A espécie de banca móvel, logo chamava à atenção da clientela, pelo som que saía de uma amplificadora instalada no teto do veículo. Mantinha-se no centro da cidade, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca, mais conhecida como Praça da Bandeira, próximo do Mercado Central, da feira do troca-troca, ponto estratégico para aquele misto de propagandista e folheiro vender o cordel e manter a preservação desse gênero literário que resistia ao avanço da era moderna. Nas minhas visitas a Teresina, sempre conversava com o velho poeta. Em 1985 informou-me que vivia contra o tempo, mas resistindo aos grandes veículos de informação: “Sei que o cordel é ignorado por muitos. Quem ainda compra, pingando, é a velha geração. Precisa que alguém mais jovem e do ramo, faça algo em prol da nossa cultura, porque ela está agonizando”. De fato, pesquisadores já anunciavam sua morte.  O desabafo em forma de profecia vinha do experiente poeta paraibano e radicado na Verde Capital piauiense. 33 anos de profissão. Falou-me ainda, que tinha projetos para a publicação de um livro (coletânea de cordéis). Fez referência ao Festival de Violeiros de Teresina, evento cultural criado pelo professor Pedro Mendes Ribeiro, e que ganhava notoriedade em todo o Nordeste. Hoje, um expoente dessa arte no Brasil. Juvenal, mesmo sem perspectiva de melhoria de venda do cordel, resistia em manter essa literatura. Em contra-partida, a poesia de autores piauienses era estudada na Europa. A notícia fora veiculada nos jornais O Dia,  de 18/19 de
agosto e O Estado,  de 15 de agosto, ambos de 1985, que destacavam pesquisas de mestrado e doutorado dos franceses Charles Piriou e Andréa Ghighi, da Universidade de Paris, bem como da existência de trabalhos franceses sobre a Literatura de Cordel. Mas a literatura de bancada, exceto as exceções desses poetas, até a metade da década de 80, servia de simples peça de museu. De Juvenal Evangelista, destacamos os cordéis: O MÁRTIR GREGÓRIO, MARCHA DO MUNDO –UM CONSELHO PARA UMA NAÇÃO SER FELIZ, O PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA, FESTIVAL NO MARANHÃO, O FILHO QUE MATOU A MÃE (CABEÇA DE CUIA), O MÁRTIR DA NOVA REPÚBLICA (VIDA E MORTE DE TANCREDO), BATALHA DO JENIPAPO e COMETA DE HALLEY. O poeta mudou-se para Boa Vista-RR, e segundo seus familiares sentia-se feliz pelo renascimento da arte que tanto defendeu. Faleceu em 2000, naquele estado, deixando um rico acervo de cordel. Parte desse material está no arquivo do Cecordel
.

sábado, 8 de junho de 2013

      ADAGIÁRIO NO CORDEL 
HOMENAGEM A LEONARDO MOTA

















O folclore é arte, é vida
Conjunto das tradições,
Das crendices e das lendas,
De um país, suas gerações;
São adágios e provérbios,
O ninar e entre canções.

O folclore está presente
Em tudo que é popular,
Esse termo William Thoms
Em Londres fez registrar
Para os anais da história
De seu povo e seu lugar.

No Brasil, Leonardo Mota,
Com grande dedicação,
Percorreu o país inteiro
E fez toda anotação
Dos adágios brasileiros,
Registro em primeira mão.

Para o doutor folclorista
Eu presto minha homenagem,
Neste folheto de feira,
Que também é reportagem.
Já foi jornal do sertão
E preserva sua bagagem.

Pois vovó sempre falava,
Nesse doutor folclorista,
Que em certa ocasião
Foi-lhe fazer entrevista,
Em Currais no Piauí,
Na fazenda Boa vista.

As histórias bem contadas,
Na minha rima eu percorro,
Conforme vovó falava
Pra papai e mãe Socorro:
“Mais vale um cachorro amigo
Do que um amigo cachorro.”

Ela pitando o cachimbo,
Os adágios nos dizia:
“Cachorro que acua alma
Não é boa freguesia
É como mulher que trai
O marido à luz do dia.”

Pois dizia haver três coisas
Que não podem consertar:
“Cachorro que pega bode,
Mulher que passa a errar,
E o homem que é mentiroso
Não se deve confiar”.

E com sua linguagem farta
Da boa expressão popular,
Quando algo era mal feito,
Sempre tinha o que falar:
“O costume do cachimbo
Que faz a boca entortar”.

Há coisas que, nem agouro,
Dizia ela, que atormenta:
“É se ter um mal vizinho,
Que nem o diabo aguenta.
Uma casa com cupim,
Ou então mulher briguenta.”

E continuava a prosa
Com aquela sua perfeição:
“Dizia que há ciência
Pra pegar boi e ladrão:
Pelo chocalho do outro,
Sabe a sua posição.”

À noitinha ela rezava
Tendo o terço em sua mão,
Ao seu lado a filharada,
Juntos faziam o refrão,
Mas antes de nos benzer
Tinha uma forte oração

“Deus te livre de sezão,
Tosse braba ou catapora;
Do sarampo e coqueluche
Que o vento trás lá de fora
E da queda de espinhela,
Dor perversa que demora”.

“Deus te livre de caxumba,
Da sífilis nem pensar,
Barriga d’água ou gastrite,
Nó na tripa ou calazar;
Do maldito reumatismo
Que faz o cristão penar”.

Depois da reza dizia:
“Só assim Deus nos defende
Dos males que há na vida
Que, pelo mundo, se estende.
Dormimos pra acordar cedo,
Quem mais vive mais aprende”.

Quando o sol, por trás da serra,
Deslumbrava a linda aurora,
Acordava a filharada,
Dizendo já está na hora:
“Quem precisa é quem se estira,
Quem não quer é quem demora”


(Folheto com 8 Páginas,31 estrofes)
Autor: Guaipuan Vieira. Membro da Academia 
Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC,
Cadeira número 19, Patrono: Leonardo Mota.
ACESSE:
http://www.cecordel.com.br/

           

segunda-feira, 13 de maio de 2013


LIVRO NARRA HISTÓRIA DE SIQUEIRA DE AMORIM

Por Guaipuan Vieira (*) 

Recentemente, no programa Canto Sertanejo, da Rádio Pitaguary, entrevistei o professor Francisco José Gomes Damasceno, da UECE, Doutor em História (PUC-SP) e Coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em História e Culturas - DÍCTIS/UECE. Lançou, há pouco tempo, dois livros: História(s)E(m)Arte(s): Reflexões Sobre Sujeitos, coletânea de textos escritos por autores diversos e que aborda temas sociais e práticas culturais, resultado de um seminário realizado no Mestrado em História daquela universidade. O segundo livro: Nos Caminhos da Vida de Siqueira de Amorim, é a reprodução de croniquetas publicadas em jornais de Fortaleza, entre as décadas de 40 e 60, por Siqueira. Os livros foram publicados pela Editora EDUFCG (Universidade Federal de Campina Grande-PB) e estão disponíveis em bibliotecas públicas da capital alencarina, para aqueles que se interessam pela nossa cultura.

Neste artigo, faço uma reflexão sobre o conteúdo de NOS CAMINHOS DA VIDA... por se tratar de um personagem que vivenciei, e que não foi somente um poeta repentista ao som da viola, mas um formador de opinião, admirado por colegas do repente e intelectuais. Compunha a elite de cantadores de sua época, como Cego Aderaldo, Domingos Fonseca, Granjeiro, entre muitos, e que por ironia do destino, na efervescência da carreira, perdeu o direito de cantar, por complicações na laringe. Nos idos de 1992, em uma de nossas conversas, em sua residência, no município de MARACANAÚ-CE, transparecia desolado dos cantadores, mas alimentava seu existir na produção de cordel e na esperança de ver um livro inédito publicado, o que não aconteceu. Sabe-se que alguns anos depois do falecimento dele, os originais guardados em ambiente insalubre, na velha residência, foram destruídos.

Mas a história de Siqueira de Amorim é resgatada pelo professor Damasceno, que após concluir o doutorado, retornou as suas origens de nordestino, pesquisando a cultura popular, o cordel, o verso de improviso, do cantador, personagem às vezes simples pela circunstância da vida, ora rico pela expressividade artística. Nessas andanças pelo sertão cearense, teve a oportunidade de assistir a pelejas desses vates do improviso, e, em uma dessas, ouvir soar pela primeira vez o nome de Siqueira, cujos versos narrados ali, chamaram-lhe a atenção, para aquele personagem até então anônimo para ele: “o poema me remetia a voz espetacular, ao cantador criativo, ao homem cuja vida de cantorias – seu bem mais precioso –acabou por lhe entregar aos braços do povo...”

A curiosidade de saber mais desse poeta referenciado pelos cantadores, abriu caminho para a pesquisa acadêmica, quando descobre que “João Siqueira de Amorim é um personagem histórico em todos os sentidos do termo. Sua vida sempre possuiu as marcas do que uma vida experimentada de forma plena pode revelar”. A pesquisa foi fundamentada na documentação hemerográfica (jornais e revistas), feita na Biblioteca Pública Menezes Pimentel, quase dois anos garimpando as crônicas que ele escreveu nos jornais de Fortaleza. A outra pesquisa foi sobre a produção oral, oportunidade que entrevistou dona Raimundinha, viúva de Siqueira, quem lhe repassara uma rica história de vida, do poeta e do casal, entrelaçada de momentos difíceis, mas superada por não se subestimarem da solidão.

Damasceno observa que os escritos do poeta: “transitavam na cultura popular e na cultura letrada, de forma muito simples... ele escreve o cotidiano, faz registro político, da sociedade, da cultura, das coisas que aconteciam nos bares, na carestia, em tudo!” Outro aspecto marcante, é quando Siqueira narra que ainda menino, ouvindo os versos do repentista alagoano, Zé Félix, decidiu que daquele dia seria um cantador, como ele descreve: “Aqueles cantos, logo depois, abriram o caminho para minha voz... aqueles cantos abriram caminhos para a perdição de minha voz... para o final dos meus cantos ao som da viola... Siqueira foi um poeta de ricas inspirações, visionário que fez de seus versos, de suas crônicas, um veículo questionador do mundo ao seu redor.
  
(*)Graduado em História         


segunda-feira, 22 de abril de 2013

CORDEL E REPENTE
 Por Guaipuan Vieira

Sábado (19), na apresentação do programa Canto Sertanejo, na Rádio Pitaguary AM 1340 Khz , recebi um telefonema do poeta e folheteiro Elias Queiroz, um dos poucos agentes culturais cearenses, que desde 1970, especializou-se em promover encontro de violeiros em bares, feiras públicas e churrascarias, com o objetivo maior de vender a literatura de cordel e CD de cantadores. (Foto: Guaipuan Vieira entrevistando as poetisas Tetê e Maria do Carneiro) Elias foi procurado pelo Sr. Juarez Dias, residente em Belém do Pará, que lhe encomendara alguns cordéis meus. O encontro deu-se domingo (20), no “Bar dos Amigos”, no Bairro Ayrton Sena, em Fortaleza, de propriedade do Sr. Edmar Rodrigues Oliveira, que abriu espaço para a apresentação de cantorias, gênero literário de grande evidência no Nordeste e em algumas capitais do sul do país.
O Bar estava lotado de admiradores desse gênero literário. Apresentaram-se os repentistas José Soares, Humberto Lopes, João Omoroso, as poetisas Tetê e Maria  do Carneiro, essa cancioneira, de voz maviosa, já correu o Nordeste impressionando a todos com seu rico repertório. O bom desse encontro, além de estar no seio da gesta nordestina, origem do poeta popular, foi que vendi parte de minha produção literária (cordel e o CD – Cordel, viola e Repente, gravado pelos repentistas Antonio Jocélio e José Vicente), em sua 4ª Edição. É bom que se diga, que o poeta repentista, seja ele de grau mais elevado na cantoria, dos grandes festivais de violeiros, continua mantendo essa tradição.

Galerias de fotos

                  Elias Queiroz(exibe alguns cordéis), Guaipuan e
                                         Maria  Carneiro

João Omoroso e João Nogueira

Humberto Lopes e João Nogueira
                           
                             Maria do Carneiro(Quixadá-CE)

                                          José Soares(RN) 

Poetisa Tetê

terça-feira, 2 de abril de 2013


MEMÓRIA POÉTICA
Por Guaipuan Vieira

ZÉ DA PRATA nasceu na localidade Prata, município de Altos, região metropolitana de Teresina, Piauí, (1871-1949). Foi repentista de grande talento, também tocava sanfona de oito baixos. Não deixou nada escrito, a exemplo de muitos desse gênero poético. Seus versos satíricos com erotismo e de crítica de cunho político, registraram fatos e acontecimentos de gerações de sua terra e vizinhança, que foram memorizados por admiradores e reproduzidos oralmente por gerações. Somente em 1972 sua poesia ganhou destaque na Antologia de sonetos piauienses, do poeta e acadêmico Félix Aires. A obra despertou o interesse de pesquisadores e estudiosos por esse poeta polêmico para a sociedade de sua época e que as gerações passaram a admirá-lo. Na intimidade dos fatos  brinca com a rima na construção dos versos.


Eu sou côco catolé,
Sou padre dizendo missa,
Sou o chefe de puliça,
Sou catete, sou piloto,
Sou uma corda de couro,
Eu sou prata, eu sou ouro,
Sou vila e sou cidade,
Sou casa de caridade,
Sou sargento furriel,
Sou tenente-coronel,
Sou major e sou fiscal,
Sou delegado-geral.


FAZENDO DENUNCIA...

A justiça do Estado,
Que se diz justa demais,
Ainda não foi capaz
De dar conta do recado,
Pois o prefeito Zé Prado,
Sem a menor compostura, 
Falsificou escritura
De terras para vender:
Só a justiça não vê
O rato da Prefeitura. 

Consta que no leito de morte, ao lado de familiares, ele versou:

Eu estou passando as horas
Em estado moribundo.
Mas rede e panela velha
Só se acabam pelo fundo.
E talvez nesses três dias
Viajo pra o outro mundo.

Estou aqui padecendo, 
Como a velha carnaúba
Meus lábios estão rosados
Que só tripa de cojuba
E a face tão corada
Que só flor de caraúba.
Só me dão para comer
Um triste mingau de puba.
Tô no pé de uma ladeira
E não sei como é que suba.