terça-feira, 2 de abril de 2013


MEMÓRIA POÉTICA
Por Guaipuan Vieira

ZÉ DA PRATA nasceu na localidade Prata, município de Altos, região metropolitana de Teresina, Piauí, (1871-1949). Foi repentista de grande talento, também tocava sanfona de oito baixos. Não deixou nada escrito, a exemplo de muitos desse gênero poético. Seus versos satíricos com erotismo e de crítica de cunho político, registraram fatos e acontecimentos de gerações de sua terra e vizinhança, que foram memorizados por admiradores e reproduzidos oralmente por gerações. Somente em 1972 sua poesia ganhou destaque na Antologia de sonetos piauienses, do poeta e acadêmico Félix Aires. A obra despertou o interesse de pesquisadores e estudiosos por esse poeta polêmico para a sociedade de sua época e que as gerações passaram a admirá-lo. Na intimidade dos fatos  brinca com a rima na construção dos versos.


Eu sou côco catolé,
Sou padre dizendo missa,
Sou o chefe de puliça,
Sou catete, sou piloto,
Sou uma corda de couro,
Eu sou prata, eu sou ouro,
Sou vila e sou cidade,
Sou casa de caridade,
Sou sargento furriel,
Sou tenente-coronel,
Sou major e sou fiscal,
Sou delegado-geral.


FAZENDO DENUNCIA...

A justiça do Estado,
Que se diz justa demais,
Ainda não foi capaz
De dar conta do recado,
Pois o prefeito Zé Prado,
Sem a menor compostura, 
Falsificou escritura
De terras para vender:
Só a justiça não vê
O rato da Prefeitura. 

Consta que no leito de morte, ao lado de familiares, ele versou:

Eu estou passando as horas
Em estado moribundo.
Mas rede e panela velha
Só se acabam pelo fundo.
E talvez nesses três dias
Viajo pra o outro mundo.

Estou aqui padecendo, 
Como a velha carnaúba
Meus lábios estão rosados
Que só tripa de cojuba
E a face tão corada
Que só flor de caraúba.
Só me dão para comer
Um triste mingau de puba.
Tô no pé de uma ladeira
E não sei como é que suba.

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