segunda-feira, 19 de agosto de 2013

PROFESSORA UNIVERSITÁRIA
 LANÇA LIVRO SOBRE CORDEL

    A Editora Appris acaba de lançar uma excelente obra sobre a literatura de cordel. Trata-se da tese de doutorado em Letras, da professora Maria Elizabeth Carneiro de Albuquerque (Beth Baltar), da Universidade Federal da Paraíba. 
O trabalho foi fruto de experiência com docentes do Departamento de Ciência da Informação daquela universidade. O conceito utilizado foi a semântica discursiva como metodologia para indexar folhetos de cordel.  Segundo a professora, “esta metodologia garante que um mesmo sistema ou sistemas afins, usem conceitos para representar documentos semelhantes, o que irá facilitar a comunicação entre o indexador, o usuário e o sistema com a utilização de um mesmo vocabulário”.
 A obra já está à venda no site da Editora: http://www.editoraappris.com.br 

Contato com a autora através dos blogs: 
ACESSE TAMBÉM: http://www.cecordel.com.br/
Contato: cecordel@yahoo.com.br

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

MORRE REPENTISTA TOTA

 
    Através do Facebook da Casa do Cantador, recebemos a notícia do falecimento do poeta repentista Antônio Barbosa Sobrinho (TOTA), ocorrido no dia 25 de julho de 2013, em Fortaleza, Ceará. Era filiado a Associação dos Cantadores do Nordeste -ACN, que tem sede no bairro do Carlito Pamplona, em Fortaleza. Segundo o presidente daquela casa cultural, poeta Dimas Mateus, seu sepultamento ocorreu através da ACN, com apoio de poetas filiados, devido à família não possuir recursos financeiros. E acrescentou: “O som de sua viola continuará gravado em alguns meios, dentre eles no coração da arte popular nordestina”. 

O poeta Guaipuan Vieira, surpreso com a morte do amigo, escreveu:


Velho Tota, velho amigo,
Neste meu verso que digo:
Enfrentava até perigo
para cantar seu repente;
Foi um poeta decente,
Na arte de versejar,
Agora já vai cantar
Para o grande Onipotente.

O som  de sua viola
Foi verso de uma escola,
Rima rica que decola,
Nos ares com harmonia;
Que santa musa extasia
Os ecos do improviso,
E no céu, grande Juízo,
Quis ouvir sua poesia.

ACESSE TAMBÉM: http://www.cecordel.com.br/
  

quarta-feira, 31 de julho de 2013

CORDÉIS DE HELDER CAMPOS


    










    O ASSOMBROSO CASO DO RAPAZ  QUE SE APAIXONOU POR UMA FALECIDA e  A FILHA DO PATRÃO, são dois cordéis de autoria do poeta Helder Campos, de Palmácia, Região do Maciço de Baturité, Ceará. O poeta descreve a temática típica da Literatura de cordel. Estrofes do Assombroso caso do rapaz...

No ano de trinta e quatro
Fortaleza era a cidade
E Parangaba o distrito
Aconteceu de verdade
Um romance pavoroso
Mas de grande intensidade.

Um rapaz de nome Alberto
Conheceu uma donzela
Muito Bela por sinal
Que tinha o nome de Estela
Lá toda noite ele ia
Para namorar com ele.

Se encontravam numa praça
Que naquele bairro havia
Alberto se apaixonou
E isso nunca acontecia
Passava o dia a pensar
Dela jamais se esquecia.
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Estrofes de A filha do patrão:

Numa pequena cidade
Do sertão do nosso Estado
Aconteceu um romance
Algo muito comentado
Por quem viveu nesse tempo
Pois foi muito divulgado.

Um rapaz de nome Heleno
Pobre, porém muito honrado
Conheceu um linda moça
Foi o seu maior pecado
Já que esse envolvimento
Trouxe muito desagrado.

O nome dela era Alzira
Nobre e formosa donzela
Nunca antes na região
Viveu mulher como aquela
Dona de rara beleza
Era uma uma linda gazela.

Cordéis com 8 páginas,31 estrofes. Edições de 22 de junho de 2013. Apoio cultural do CECORDEL.

                         
            Contato com o autor: helder1962@yahoo.com.br

sexta-feira, 26 de julho de 2013


MORRE O HERDEIRO DE LUIZ GONZAGA

Por Guaipuan Vieira*


  Em 1992 Dominguinhos esteve em Fortaleza-CE, cumprindo agenda de shows. Foi a oportunidade que tive de conhecê-lo pessoalmente e entrevistá-lo para a Rádio Pitaguary, programa Canto Sertanejo, apresentado por mim. Testemunhei a simplicidade, humildade daquele músico, decantado pela grande mídia, tido como herdeiro do trono musical de Luiz Gonzaga. Mostrou-se preocupado com o sanfoneiro nordestino, observando que muitos abandonavam a profissão por não viverem da arte. Falou do surgimento de novos ritmos, esclarecendo que o forró se mantém por ser uma cultura nordestina que encanta a todos, mas que o sanfoneiro não fica imune de aprimorar cada vez mais os seus conhecimentos.

VIDA & CARREIRA

   José Domingos de Moraes, Neném, ou seja, Dominguinhos, nome batizado por Luiz Gonzaga, por achar que não seria um bom nome artístico, nasceu em 1941 na cidade de Garanhuns-PE. Seu pai, o mestre Chicão, era sanfoneiro e afinador de fole, famoso naquela região. Dominguinhos aos 6 anos expressou o dom da música, tocando pandeiro. Aos 8 anos, com os irmãos Moraes, na sanfona e Valdomiro, na zabumba, formou o trio OS TRÊS PINGUINS, e passaram a tocar em feiras e hotéis na capital pernambucana. Em 1948, em uma de suas apresentações, no Hotel Tavares Correia, conheceu Luiz Gonzaga, que ficou impressionado ao vê-lo dominar bem aquele instrumento de sopro (acordeon). Luiz lhe deu dinheiro e seu endereço no Rio de Janeiro, expressando naquele gesto de nordestino irmão, que podia contar com seu apoio. Luiz era possuidor dessa grande qualidade humana. Dominguinhos vocacionado pela música, em 1950 começa a tocar sanfona de oito baixos, e inspirado no irmão mais velho, em 1952, passa a tocar acordeon. Mas a difícil vida no Nordeste sempre migrou muitos nordestinos para o sul do país, em busca de um uma vida melhor. Com Dominguinhos não foi diferente. Em 1954 segue com o pai e seus irmãos para o Rio de Janeiro, levando no bornal de esperança o endereço de Luiz Gonzaga. Tudo foi transcorrendo aos passos do destino. Seu pai, Chicão, recebeu de Luiz uma sanfona. Dominguinhos aos pouco foi se familiarizando com o novo mundo, sem deixar de visitar a casa de Luiz Gonzaga. No cenário artístico foi conhecendo grandes nomes da música nordestina, como Marinez, Zito Borborema e o Zabumbeiro Miudinho. Com os dois últimos chegou a criar o Trio Nordestino, e passou a tocar em circos e em arrasta-pés em alguns municípios daquele estado. Em 1964, gravou o primeiro disco FIM DE FESTA, pelo selo Cantagalo. Para alguns críticos da música, este disco descrevia sua identidade artística, ganhando notoriedade na arte. Em 1972, passou a ter nova experiência com outros estilos musicais, quando participa do show Índia, de Gal Costa, e Refazenda, de Gilberto Gil. Entre outros shows feitos a convite de diversos artistas da música popular brasileira, com Caetano Veloso, Chico Buarque, Sivuca, enfim, um artista reverenciado por todos.

MORTE


   A notícia da morte do exímio sanfoneiro, cantor e compositor, não pegou a população brasileira de surpresa, o músico há seis anos se tratava de um câncer no pulmão. Em 17 de dezembro de 2012, teve complicações, e foi internado às pressas na Unidade de Terapia Intensiva Coronariana do Hospital Santa Joana, no Recife. Em 13 de janeiro de 2013, a pedido da família, segundo a ex-mulher de Dominguinhos, a cantora e compositora Guadalupe Mendonça, foi transferido para o Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, permanecendo até o seu falecimento que transcorreu dia 23 de julho deste ano, aos 72 anos, deixando uma rica bagagem cultural e a conquista do prêmio Grammy Latino, em 2012.

HOMENAGEADO POR ARTISTAS

     Nos últimos dias venho acompanhando via parabólica, a programação da TV Nordeste, no Recife. Ontem (24), transmitiram cenas de homenagens a Dominguinhos, feita por diversos músicos no Festival de Inverno, realizado na Veneza brasileira. A TV foi às ruas da grande cidade e ouviu o povo cantar os sucessos do ilustre filho pernambucano. Entrevistou Genival Lacerda, que foi com Luiz Gonzaga, padrinho de casamento desse sanfoneiro cultuado por seu povo. A compositora e cantora Anastácia, lamentou a perda do amigo e falou das composições feitas em parceria. Ressalva-se que o músico sempre fez questão de dizer que aprendeu a compor com Anastácia. Não faltaram os versos da literatura de cordel, escrito pelo poeta pernambucano José Evangelista. Em Fortaleza, o poeta de Tauá, Paulo de Tarso, foi rápido, escreveu O ENCONTRO DE DOMINGUINHOS COM GONZAGÃO LÁ NO CÉU, com versos que descrevem a bagagem cultural desse que influenciou ao logo da carreira, gerações de músicos pelo Brasil.

“Era vinte e três de julho 
De dois mil e treze o ano
 Nosso mestre Dominguinhos 
Subiu ao Pai soberano 
Foi fazer festa no céu 
Longe de qualquer tirano.”

 “Grande nome da sanfona 
Dominguinhos foi valente 
No começo dessa noite 
Já deixou o céu contente 
Encontrou-se com Gonzaga 
Jesus estava presente.”   

    Do Rio de Janeiro recebi da poetisa Dalinha Catunda, cearense de Ipueiras, esta estrofe do cordel A PARTIDA DE DOMINGUINHOS: 

 Uma sanfona emudece 
Um sanfoneiro partiu. 
Quem Dominguinhos ouviu 
A sua voz não esquece.
O seu canto além de prece,
Foi encanto e louvação, 
Encantou serra e sertão
Quem de Lua foi herdeiro, 
Partiu nosso sanfoneiro 
Partindo meu coração.

   O  poeta Pardal Presidente do CECORDEL(Fortaleza), escreveu: 


Gonzagão um dia disse:
Um herdeiro eu vou deixar
Pois o fole da sanfona
Só ele sabe puxar
Dominguinhos, este o herdeiro,
Hoje no céu é o primeiro
Pra com seu mestre tocar. 25/07/2013

A poetisa Vânia Freitas(Fortaleza-CE), enfatizou: 

As lágrimas do teu povo
Vão rolar pelo forró.
A sanfona vai gemer
Com saudade do xodó
De Domingos, sanfoneiro,
Que alegrou o brasileiro
Com a força do seu gogó. 25/07/2013

No impulso da emoção, não poderia deixar passar em branco, a minha homenagem ao saudoso mestre do acordeon, através do cordel UM ADEUS AO HERDEIRO DE GONZAGÃO:

Estava ouvindo uma rádio
Que é rica de informação
Quando ouvi tocar um xote
E fizeram a narração
Como cortando caminhos
Disseram, aí, Dominguinhos
Para o céu fez ascensão.

Fui ouvir outra emissora
E essa sendo nordestina
Era feito um especial
No som de uma concertina
Chico Paes tocava forte
Pro sanfoneiro do norte
Uma homenagem que assina.

Concretizava a notícia
Tristonha naquele dia
Enlutando a nossa música
E um trono que se esvazia
Pela peculiaridade
De rica expressividade
Que a deusa musa extasia.

    Certamente uma “chuva” de cordel se espalha por todo o Nordeste. É a notícia em versos, decantado história e acontecimento, através da Literatura de Cordel, um informativo que permanece em evidência no Nordeste Brasileiro.

 *Poeta e graduado em História - Sábado(27),Guaipuan prestou  homenagem a Dominguinhos, na RÁDIO PITAGUARY - AM -1340 KHZ  http://radiopitaguaryam.com/

ACESSE  também:   http://www.cecordel.com.br/

CECORDEL 25 ANOS

sexta-feira, 21 de junho de 2013

BANCA NACIONAL MAIS UMA VEZ APREENDIDA (HÁ UM ANO)



 A CULTURA POPULAR PEDE SOCORRO

UM APELO AOS QUE VALORIZAM A CULTURA POPULAR


BANCA NACIONAL DO CORDEL MAIS UMA VEZ APREENDIDA
VAI FAZER UM ANO



            Esta é a BANCA NACIONAL DO CORDEL, um equipamento do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste – CECORDEL.
O CECOEDEL é uma entidade cultural, fundada em agosto de 1987.  Há mais de 25 anos, nossa entidade produz, incentiva e luta por mais valorização da cultura popular expressa no cordel e no repente do cantador.
A entidade nasceu de um grupo e poetas que se reunia ao redor de uma banca no centro da antiga praça do Ferreira, em 1987. Quando a praça passou pela reforma, a Fundação Cultural de Fortaleza, que lá funcionava, não teve interesse para instalar um box de cordel, que ficaria sob a responsabilidade do Cecordel. Transferiram a banca para praça dos Voluntários, onde ficou até 1994, quando foi levada pelo caminhão da Emlurb.
            Tentamos junto à SER II, a legalização da banca e a sua volta mas nada foi feito.
      Fomos atrás da inciativa privada para o patrocínio de uma nova banca. Conseguimos a adesão da Fundação Demóçrito Rocha, que nos doou a banca. O poeta Barros Pinho (in memorian), então presidente da Fundação Cultural de Fortaleza, nos cedeu um espaço no Largo dos Correios, no centro. Inauguramos a Banca (v. Foto). Como o lugar se  tornou insuportável, devido o barulho, fumaça de churrasco, solicitamos à administração municipal para transferir para a praça vizinha – Valdemar Falcão. Isso em 2010. Ficou lá até julho de 2012. Mês em que foi apreendida pela SER- Centro. Dia 13/07/2012, Gerardo Frota (Pardal), presidente do Cecordel, protocolou nessa secretaria, solicitando a devolução da banca. O que foi atendido
Em 31/7/2012, foi dada entrada no protocolo, dessa mesma secretaria a solicitação do espaço para que a banca volte a funcionar, sendo procedida a sua regulamentação a fim de que não seja repetido este mesmo constrangimento. O protocolo desta solicitação está sob o n. 1707155938910/2012.
            Com este breve histórico, o Cecordel  está procurando alguma pessoa amiga, autoridade que seja sensível a esta causa a fim de que possa nos ajudar junto ao secretário da SER-Centro a reabilitar nossa Banca. A cidade de Fortaleza é quem ganha com a presença  da banca de cordel numa de suas  praças, mostrando com isso que valoriza a cultura do seu povo.


Gerardo Carvalho Frota (PARDAL)
         Presidente CECORDEL

domingo, 9 de junho de 2013

JUVENAL EVANGELISTA SANTOS
UM PROPAGANDISTA DO VERSO 


Por Guaipuan Vieira

 Até o final da década de 90, o poeta repentista Juvenal Evangelista Santos, vendia em Teresina, Piauí, em uma Kombi usada, cordéis e fitas de cantoria. A espécie de banca móvel, logo chamava à atenção da clientela, pelo som que saía de uma amplificadora instalada no teto do veículo. Mantinha-se no centro da cidade, na Praça Marechal Deodoro da Fonseca, mais conhecida como Praça da Bandeira, próximo do Mercado Central, da feira do troca-troca, ponto estratégico para aquele misto de propagandista e folheiro vender o cordel e manter a preservação desse gênero literário que resistia ao avanço da era moderna. Nas minhas visitas a Teresina, sempre conversava com o velho poeta. Em 1985 informou-me que vivia contra o tempo, mas resistindo aos grandes veículos de informação: “Sei que o cordel é ignorado por muitos. Quem ainda compra, pingando, é a velha geração. Precisa que alguém mais jovem e do ramo, faça algo em prol da nossa cultura, porque ela está agonizando”. De fato, pesquisadores já anunciavam sua morte.  O desabafo em forma de profecia vinha do experiente poeta paraibano e radicado na Verde Capital piauiense. 33 anos de profissão. Falou-me ainda, que tinha projetos para a publicação de um livro (coletânea de cordéis). Fez referência ao Festival de Violeiros de Teresina, evento cultural criado pelo professor Pedro Mendes Ribeiro, e que ganhava notoriedade em todo o Nordeste. Hoje, um expoente dessa arte no Brasil. Juvenal, mesmo sem perspectiva de melhoria de venda do cordel, resistia em manter essa literatura. Em contra-partida, a poesia de autores piauienses era estudada na Europa. A notícia fora veiculada nos jornais O Dia,  de 18/19 de
agosto e O Estado,  de 15 de agosto, ambos de 1985, que destacavam pesquisas de mestrado e doutorado dos franceses Charles Piriou e Andréa Ghighi, da Universidade de Paris, bem como da existência de trabalhos franceses sobre a Literatura de Cordel. Mas a literatura de bancada, exceto as exceções desses poetas, até a metade da década de 80, servia de simples peça de museu. De Juvenal Evangelista, destacamos os cordéis: O MÁRTIR GREGÓRIO, MARCHA DO MUNDO –UM CONSELHO PARA UMA NAÇÃO SER FELIZ, O PADRE CÍCERO ROMÃO BATISTA, FESTIVAL NO MARANHÃO, O FILHO QUE MATOU A MÃE (CABEÇA DE CUIA), O MÁRTIR DA NOVA REPÚBLICA (VIDA E MORTE DE TANCREDO), BATALHA DO JENIPAPO e COMETA DE HALLEY. O poeta mudou-se para Boa Vista-RR, e segundo seus familiares sentia-se feliz pelo renascimento da arte que tanto defendeu. Faleceu em 2000, naquele estado, deixando um rico acervo de cordel. Parte desse material está no arquivo do Cecordel
.

sábado, 8 de junho de 2013

      ADAGIÁRIO NO CORDEL 
HOMENAGEM A LEONARDO MOTA

















O folclore é arte, é vida
Conjunto das tradições,
Das crendices e das lendas,
De um país, suas gerações;
São adágios e provérbios,
O ninar e entre canções.

O folclore está presente
Em tudo que é popular,
Esse termo William Thoms
Em Londres fez registrar
Para os anais da história
De seu povo e seu lugar.

No Brasil, Leonardo Mota,
Com grande dedicação,
Percorreu o país inteiro
E fez toda anotação
Dos adágios brasileiros,
Registro em primeira mão.

Para o doutor folclorista
Eu presto minha homenagem,
Neste folheto de feira,
Que também é reportagem.
Já foi jornal do sertão
E preserva sua bagagem.

Pois vovó sempre falava,
Nesse doutor folclorista,
Que em certa ocasião
Foi-lhe fazer entrevista,
Em Currais no Piauí,
Na fazenda Boa vista.

As histórias bem contadas,
Na minha rima eu percorro,
Conforme vovó falava
Pra papai e mãe Socorro:
“Mais vale um cachorro amigo
Do que um amigo cachorro.”

Ela pitando o cachimbo,
Os adágios nos dizia:
“Cachorro que acua alma
Não é boa freguesia
É como mulher que trai
O marido à luz do dia.”

Pois dizia haver três coisas
Que não podem consertar:
“Cachorro que pega bode,
Mulher que passa a errar,
E o homem que é mentiroso
Não se deve confiar”.

E com sua linguagem farta
Da boa expressão popular,
Quando algo era mal feito,
Sempre tinha o que falar:
“O costume do cachimbo
Que faz a boca entortar”.

Há coisas que, nem agouro,
Dizia ela, que atormenta:
“É se ter um mal vizinho,
Que nem o diabo aguenta.
Uma casa com cupim,
Ou então mulher briguenta.”

E continuava a prosa
Com aquela sua perfeição:
“Dizia que há ciência
Pra pegar boi e ladrão:
Pelo chocalho do outro,
Sabe a sua posição.”

À noitinha ela rezava
Tendo o terço em sua mão,
Ao seu lado a filharada,
Juntos faziam o refrão,
Mas antes de nos benzer
Tinha uma forte oração

“Deus te livre de sezão,
Tosse braba ou catapora;
Do sarampo e coqueluche
Que o vento trás lá de fora
E da queda de espinhela,
Dor perversa que demora”.

“Deus te livre de caxumba,
Da sífilis nem pensar,
Barriga d’água ou gastrite,
Nó na tripa ou calazar;
Do maldito reumatismo
Que faz o cristão penar”.

Depois da reza dizia:
“Só assim Deus nos defende
Dos males que há na vida
Que, pelo mundo, se estende.
Dormimos pra acordar cedo,
Quem mais vive mais aprende”.

Quando o sol, por trás da serra,
Deslumbrava a linda aurora,
Acordava a filharada,
Dizendo já está na hora:
“Quem precisa é quem se estira,
Quem não quer é quem demora”


(Folheto com 8 Páginas,31 estrofes)
Autor: Guaipuan Vieira. Membro da Academia 
Brasileira de Literatura de Cordel - ABLC,
Cadeira número 19, Patrono: Leonardo Mota.
ACESSE:
http://www.cecordel.com.br/