segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CORDELTECA

Poetisa Dalinha Catunda, com o aval da ABLC, implanta na cidade de Ipueiras, no Ceará, nova CORDELTECA. A matéria que publicamos foi extraída  do fecebook de Dalinha.

Sábado com a presença do secretário de cultura Nelito Catunda e seu antecessor Tardeli, implantamos na cidade e Ipueiras, a 17ª cordelteca com o aval da ABLC, Academia Brasileira de literatura de Cordel. Neste evento cultural contamos com a presença do presidente da ABLC, Gonçalo Ferreira da Silva, que veio do Rio de Janeiro, com a presidente da ACC, Academia os Cordelistas do Crato, Anilda Figueiredo. Na ocasião, Anilda Figueiredo, foi convidada a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Literatura de Cordel, dando prosseguimento ao intercâmbio pelo qual tanto tenho lutado entre as academias: ABLC e ACC. Contamos também com a marcante presença da poeta cordelista Josenir Lacerda, uma das fundadoras da ACC, que muito tem me ajudado nesta interação. É ela, o fio da meada na construção desta teia. Josenir veio acompanhada do marido Miguel Teles e do filho Miguel Junho, braço forte na organização do evento. Tivemos ainda da Academia dos Cordelistas do Crato: Mana que animou a todos com sua energia e Luciano Carneiro cordelista e Mestre de Cultura, que como sempre deu um show com suas declamações. Na comitiva do Crato, destaco também as professoras, Franci e Liduina que fazem parte do Grupo Flor do Cariri e foram de suma importância para o evento. Não poderia deixar de citar o comparecimento de minha prima querida, Fátima Prado. Neste “Encontro de poetas cordelistas na cidade de Ipueiras” enriquecendo o evento tivemos o cordelista Elmo Nunes que veio de Poranga, e o poeta João de Reriutaba, que veio em comitiva. Meus agradecimentos aos amigos, as professoras e os radialistas que aqui estiveram prestigiando este Encontro de Poetas em Ipueiras.

Acesse também: http://www.cecordel.com.br

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Cordel Longe do fim 

Baú do cordel -  A Literatura de cordel está renascendo no Ceará. O presidente e fundador  do Centro Cultural dos Cordelistas (Cecordel), Guaipuan Vieira, comemora os esforços tomados pela entidade para manter a tradição de aproximadamente 80 anos do cordel no Estado. Com a morte anunciada por estudiosos da cultura popular,a literatura de cordel, segundo ele, passa  longe  fim”.

    Criado em 1987, através da iniciativa individual de Vieira, o Cecordel surgiu com a finalidade de reunir os cordelistas de Fortaleza e reativar a produção de folhetos que desde a década de 70 estava sumida do cenário cultural cearense.  As estratégias são mostras em escolas, centros culturais e feiras, intercambio com bibliotecas e universidades de outras estados e realização de oficinas para crianças e adultos, bem como uma banca para a venda dos folhetos no centro da cidade.

    A literatura de Cordel tenta aos poucos retomar seu passo de volta ao posto de  arte tradicional e genuína representante do folclore nordestino. A confecção de folhetos encomendados por políticos em época  de eleição e por agencias de turismo, para divulgação das atrações de Fortaleza, são outros meios que auxiliam na retomada da produção . O cecordel funciona ainda como uma cooperativa.  Da contribuição dos sócios –todos poetas – a cada mês, através de sorteio, são publicados dois títulos de cordéis inéditos. A entidade em 11 anos de existência, já publicou mais de 100 títulos.

   “Apostamos muito em divulgação nos meios de comunicação, como as revistas e jornais culturais”, acrescenta o presidente. Sobre isso, ele conta um fato curioso que ocorreu no ano da fundação do Cecordel. Nesta ocasião a rede Globo de Televisão estava no Ceará para a gravação do especial “O Último Cangaceiro” o Cecordel foi contatado pela Globo para emprestar alguns folhetos para a filmagem.  A entidade aceitou a tarefa e pediu em troca apenas a divulgação  do nome do Centro nos créditos do especial. “Ensinei  a atriz Letícia Sabatella a cantar os versos de Cordel”, lembro Vieira. O especial foi gravado, os folhetos do Cecordel filmados, atriz ensinada, mas, segundo ele, o nome não estava lá. Mesmo assim, o Centro não perdeu o ânimo.

      Uma enxurrada de estudos, dissertações e teses em universidades  de todo o País são fatos que comprovam o interesse das pessoas pela literatura de cordel. “O cordel cearense foi tema de teses até na Inglaterra”, festeja.(...)

 Adaptação

    Poeta e ex-presidente do Cecordel, Otávio Menezes, diz que o advento e modernização do meios de comunicação, como rádio,televisão e jornal, foram as principais causas da queda na produção original de levar informação, entretenimento e cultura ao povo nordestino. “Dos anos 30 à década de 60, a informação não chegava à casa das pessoas com a rapidez de hoje e a impressão e transporte dos jornais demorava dias”, explica. “ O cordel não está morrendo, está apenas se adaptando à transformações  da sociedade”.

    Obras como “Pavão Misterioso” e “João Grilo” chegaram a vender cerca de 80 mil  e 10 mil exemplares, respectivamente, na década de 40. Guaipuan Vieira calcula que hoje a produção chega no máximo a mil folhetos. Antigamente, os próprios  poetas viajavam léguas pelo sertão nordestino contatando e vendando seus poemas. Eles cantavam ainda com a ajuda dos folheteiros e pontos comerciais em mercados, feiras e estações ferroviárias.

     “As cidades estão desenvolvidas, movimentadas e as pessoas preferem assistir a TV ou ler revistas para passar o tempo e se informar”, afirma Otávio Menezes. O surgimento do mimeógrafo, do computador e da xerox também serviu para substituir as antigas tipografias com suas máquinas primitivas e caseiras, denominadas “suvaqueiras”. A produção dos folhetos hoje é basicamente domestica com a ajuda do computador e da fotocópia. “ A literatura de cordel estava precisando de uma reformulação para se adaptar, pois manter a tradição não é manter o atraso” salienta.

  Construção  

   As temáticas continuam praticamente as mesmas de 80 anos atrás. Fatos jornalísticos do momento, acontecimentos de repercussão nacional, como a morte de uma pessoa famosa, e notícias locais são temas preferidos. No linguajar do cordel, são fatos “de circunstancia” ou “de acorrido”. Menezes esclarece que a produção de temas globais foi reduzida, pois a TV, o rádio, o jornal já dão conta disso.

    Há ainda temática históricas e ficcionais. “Não pegamos somente o ato em si, que funciona apenas com espinha dorsal. Acrescentamos outros elementos com a rima, o humor e os gracejos”, explica. Títulos como “ Chegada de Lampião no Céu”, Mainha, o maior pistoleiro do Nordeste”, “A Morte do Rei do Baião” e “ A Mulher que deus à luz a seis meninas e uma vez” são apenas alguns exemplos da extensa lista das histórias contadas. As capas são sempre ilustradas com xilogravuras ou desenhos.

     Os folhetos têm geralmente oito e 16 páginas e são narrados em estrofes com seis versos (sextilha) ou sete versos rigorosamente metrificados.  Os títulos de ficção como temas  de aventuras e amor baseados na literatura medieval têm 32 ou 64 páginas e estão cada vez mais raros nos dias de hoje.

      Os custos para produção são altos para o poeta que, atualmente, não lucra quase na com a venda, pois a maior parte é distribuída. “Além disso, os folhetos longos exigem muita experiência do poeta para a condução do fio narrativo”, esclarece Menezes. Segundo o presidente do Cecordel, os gastos com a produção de mil exemplares comuns varia de R$180 a R$300 e mil folhetos de ficção chegam a custar o triplo. Os leitores mais assíduos do cordel em Fortaleza são estudantes –estimulados pelos professores -, pesquisadores, turistas e agricultores que chegam à capital. “Os folhetos também têm uma presença forte na região do Cariri, principalmente Juazeiro do Norte, e em Canindé, vendidos durante as festas religiosas”, ressalta Guaipuan Vieira. Para Otávio Menezes, os temas preferidos continuam sendo os engraçados, jocosos e galhofeiros.

   “Para atrair o leitor, o título tem que ser interessante e criativo, ter uma boa ilustração na capa, a história linear, bem contada., versos concatenados, bem cadenciados e rima perfeita”, acrescenta o poeta.


 Benedito Teixeira – Gazeta Mercantil -Terça-feira,06/01/1999

Acesse: www.cecordel.com.br

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

SITE DO CECORDEL COMPÕE ACERVO DA LIBRARY OF CONGRESS

O Site do Cecordel www.cecordel.com.br e blog compõem o acervo da Biblioteca do Congresso Americano. Desde 1966, a Biblioteca do Congresso vem adquirindo cordéis para o AMERICAN FOLKLIFE CENTER com um acervo atual de quase 10.000 cordéis em papel. Segundo a Folklife Hoje é cada vez mais comum os cordelistas publicarem o cordel em formato digital via websites e blogs, portanto, é importante que as bibliotecas desenvolvam uma estratégia de arquivamento desse valioso material.

“A colaboração neste projeto é possível, em parte, devido à presença  do escritório da Biblioteca do Congresso Americano no Rio de Janeiro. Desde 1962, a Biblioteca do Congresso mantém escritórios no exterior para coletar, catalogar, preservar e distribuir publicações e materiais de pesquisa de países onde esses materiais não são disponibilizados através de métodos convencionais de aquisição. O grupo de consultoria Brazil Cordel Literature Online (BCLO) é responsável pela escolha de sites para incluir no arquivamento. A Biblioteca do Congresso está em parceria com as seguintes instituições no Brasil e nos EUA para determinar os melhores sites para inclusão neste projeto: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP); Fundação Casa de Rui Barbosa; Universidade Estadual da Paraíba; Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo; Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ); Universidade do Novo México, Universidade de Wisconsin e Ibero- Amerikanisches Institut.”

 “Nossos arquivos de web são importantes porque contribuem para o registro histórico, capturando informações que poderiam ser perdidas. Com o crescente papel da Web como um meio influente, registros de acontecimentos históricos podem ser considerados incompletos sem os materiais que foram originados digitalmente e nunca impressos em papel. Para mais informações sobre essas coleções de arquivos da web na Biblioteca do Congresso Americano, visite nosso website (http://www.loc.gov/webarchiving/).  Este é o segundo arquivamento de sites coletados no Brasil pelo escritório da LC no Rio de Janeiro em colaboração com instituições brasileiras. Em 2010, 46 sites relacionados à eleição presidencial brasileira foram arquivados. Esta coleção está sendo processada e esperamos que esteja disponível on-line em um futuro próximo.”



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O Centro Cultural dos Cordelistas-CECORDEL realizava em 1988 a 2º Exposição de Literatura de Cordel e de Xilogravura. A exposição perdurou por 6 anos em Galerias de Artes em Fortaleza. A iniciativa do poeta e escritor Guaipuan Veira, à frente de um grupo de anônimos cordelistas, fez renascer essa literatura em todo o Nordeste brasileiro. Participaram dessa Exposição, os poetas: Joaquim Batista de Sena, Jotamaro, Otávio Menezes, Gerardo Carvalho(Pardal), José Maria de Freitas, Guaipuan Vieira, Costa Sena, José Caetano da Silva(repentista), José Ferreira Neres, Afonso Nunes Vieira, Zé Limeira de Fortaleza,  Antonio Jocélio e Horácio Custódio(repentistas). Homero Alves da Silva, Vera Maria Oliveira, Maria Luciene, Ana Jucá, Maria Felicidade, Vescêncio Fernandes, Dimas Mateus (Repentista) Zé Calixto, Marreco, Zizi Gavião (emboladores de coco). Poetas que cantam e decantam o cotidiano do povo brasileiro, especificamente o Nordeste, um território que sofre as secas dolorosas, que fazem famílias migrarem para outras regiões do país, em busca de sobrevivência e protegidos pelo Deus dará. O cordel continuará porta-voz da gesta nordestina.


Acervo: Cecordel ( proibido reprodução sem citação dos créditos)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

                                                 http://radiopitaguaryam.com/player.html

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O POETA HERMES VIEIRA, 102 ANOS

Por Guaipuan Vieira
     
Hoje, 23 de setembro de 2013, registramos a data de nascimento de uma das maiores expressões da poesia popular piauiense, Hermes Vieira. Poeta, indianista e folclorista.(foto:Maio/2000) Nascido em 1911, em Elesbão Veloso, município da cidade de Valença, Piauí. Filho de Raimundo Rodrigues Cardoso Vieira e de Joaquina de Sousa Viana, pequeno latifundiário, que tangido pelas secas periódicas deixara a lavoura e sobrevivera curtindo pele de animal de criação. Naquela época a família residia no distrito de Palmeirais. Hermes aos oito anos de idade, a exemplo dos irmãos mais velhos, ajudava o pai. Somente aos treze anos foi matriculado numa Escola em Cajueiro, distrito daquela região. O trajeto de doze quilômetros era feito de segunda a sexta-feira, a lombo de burro ou a pé. Uma de suas virtudes era admirada por sua professora, Rosa Lima, pois aquele menino pobre aproveitava o recreio para fazer o dever de casa, como predestinado pelo destino. Haja vista que a família sem recursos financeiros, não teve mais condição de pagar seus estudos. Mas os seis meses de escola foram suficientes para que aprendesse a ler e escrever. Soube aproveitar as instâncias da vida, tornando-se um autodidata e poeta possuidor de uma poética com estilo próprio. HOJE SE VIVO FOSSE ESTARIA COMPLETANDO 102 ANOS DE VIDA.  Saudemos este imortal poeta com seu poema O ANALFABETO extraído de seu livro NORDESTE. Um clássico da literatura popular: 

                                                   Foto: Raimundo Rosa(Cazé), década de 80

O ANALFABETO

Meu patrão, rãincê tá vendo
Este pé de jatobá
E esses resto de parede
Dendro desses bamburá?

Apois foi nessa tapera,
Amarrado neste pau,
Qui mataro, já fáiz ano,
O caboco Niculau.

Isto aqui já foi fazenda
Dum preverso Zé Ribêro,
E prevesso tombém era
Chico Neto, seu vaquêro.

Esse causo foi assim,
Vou conta p’u coroné,
Qué p’a mode rãincê vê
Cum’as coisa do mund’é.

Um subrim de Zé Ribêro,
Um xujeito tombém mau,
Deu de taca, sem mutivo,
Num rimão de Niculau.
  
Niculau, sabendo disso,
Um manguá meteu na mão
E vingou, no mêrmo dia,
A disfeita do rimão.

No momento inda fizêro
Uma gruía com o rapáiz
Mais, dispois isfriou tudo,
E fizéro novas páiz.

Mais, um dia, Niculau
Pricisou de viajá
P’a fazenda “Vaca Morta”
Ponde vamos nóis passa.

Quando sobe da nutiça,
Esse tá de Zé Ribêro
Pidiu ele qui levasse
Um biête p’u vaquêro.

Niculau pegou o biête
E siguiu no seu camim;
Era  um dia de verão,
Num dumingo bem cedim.

Quando o dia foi morrendo;
Niculau aqui chegou
E o biête qui trazia
Ao vaquêro ele intregou.

Esse, antão,cum cara santa
De quem tem bom coração,
Féiz o pobe do rapáiz
Tira a sela do alazão.

E dispois ele fêiz tudo
Pra seu hóspe s’inludi:
Lhi deu ceia cum fartura
E uma rede p’a drumi.

Mais porém quando drumia
Sono carmo d’inucente,
Chico Neto cum dois caba
Lhi pegáro de repente.

E na luiz de uma foguêra,
Amarrado neste pau,
Chico Neto, carmamente,
Foi matando Niculau.

Cum siá faca bem molada,
Esse mau, sem coração,
Arrancou do pobe o zói
E adispois cortou siás mão.

E do corpo da rapáiz
Foi seu sãingue s’isgotando,
E o marvado ria dele
Desse jeito s’cabando.

Adispois lhe preguntou,
Todo cheio de prazê:
-Niculau, você já sabe
O pur quê qui vai morre?

Niculau, nesse momento,
Cuma ponta de arfinete,
Biservô batê na mente
A lembrança do biête.

Mêrmo assim já quaje morto,
Cum seu corpo insãinguentado,
Niculau, cum vóiz baxinha,
Respondeu p’u disgraçado:

-O mutivo d’eu morre...
Eu bem sei...seu Chico Neto
Tá disgraça...só si deu...
Pruqu’eu sou...anafabeto...

Cuma é triste, coroné,
Um cristão assim morre
S’intregando ao assassino,
Pruque não sabia lê!!


terça-feira, 3 de setembro de 2013

UM SANFONEIRO CEARENSE E LUIZ GONZAGA

       Por Guaipuan Vieira*
      
Era sexta-feira, 15 de março de 1991, o forrozão da Rádio Pitaguary “acordava” a população da grande Maracanaú e adjacências. Bate-papo com o ouvinte, informações chegadas dos principais jornais da capital alencarina, aviso do horário de trens de passageiros vindos das linhas sul e norte a Fortaleza. O efeito sonoplástico da locomotiva em movimentação e buzinando, chamava a atenção do ouvinte. Outros efeitos discorriam na programação: galo cantando, vaca berrando, cachorro latindo e cancela rangendo. Era o sertão transcrito nas ondas do rádio, das 5h às 8h, de segunda a sexta-feira.
       Entre o bate-papo com o ouvinte no ar, um telefonema soava com o refrão de falar na linha interna. Era do músico Careca da Sanfona, que me fazia um convite para uma feijoada na sua residência ao som de forró pé-de-serra.  Ele era ouvinte assíduo. Silente ao longo dos anos vinha acompanhando aquela programação, a exemplo de muitos outros que se mantinham ocultos.( Foto: Careca recebendo troféu de 1º lugar, do então prefeito de Maranguape, Raimundo Gomes de Matos e do representante da  Pepsi Cola, em Fortaleza). 
      Sábado às 10h, eu chegava à residência daquele sanfoneiro, no bairro Montese, em Fortaleza. Não precisei apertar a campainha, o portão estava aberto, com entre e sai de músicos e convidados.  Logo avistei um senhor de estatura média, cor branca, forte e careca, tocando uma sanfona de 80 baixos, com um regional.  Ao meu encontro veio uma senhora de estatura mediana, cor branca, esbelta e educada. Ao saudar-lhe com meu bom dia, e identificar-me, ela sorriu e exclamou: “o Raimundo achava que o senhor não viria, seja bem vindo!” Era sua esposa, dona Zélia, que não lhe chamava pelo pseudônimo. Subitamente foi até ao marido e cochichou-lhe ao seu ouvido. Careca na simplicidade de nordestino, como se me conhecesse pessoalmente há anos, cumprimentou-me ao som da sanfona e apresentou-me aos convidados. Em seguida tocou um choro e um forró, todos de sua autoria. Com isto, fez uma parada para um outro sanfoneiro tocar.  Saiu a passos lentos prosando com um e com outros. Sentou-se ao meu lado e puxamos um fio de prosa. Nisso dona Zélia nos chamou para saborear a feijoada. Ao término, careca levantou-se, foi até um mostruário, pegou um chapéu de couro, alguns recortes de jornais, voltou à mesa e começou a narrar histórias de suas apresentações pelo Brasil. Naquele momento descobria que estava diante de um personagem que escrevera algumas páginas da história do forró pé-de-serra, no Nordeste, especialmente no Ceará. Esse sanfoneiro, ao longo da carreira artística teve uma a agenda lotada, tocava para turistas europeus, sobre contrato de hoteleiros da orla marítima. Nas festas juninas, no começo do ano já estava contratado para tocar em grandes eventos em Fortaleza e em outros Estados do Nordeste.
      Na década de 80 viajou para o sul do país, onde se apresentou no programa Som Brasil, na TV Globo, apresentado por Lima Duarte, que substituía Rolando Boldrin. Foi um sucesso marcante na vida dele.  Careca tinha todo o repertório de Luiz Gonzaga, imitava o Rei do Baião, que por circunstancia do destino, em 1962, numa casa comercial na rua Guilherme Rocha, em Fortaleza, sem sabumbeiro e aflito para gravar um comercial para a TV, saíra às pressas em busca desse tipo de músico, quando de súbito fora surpreendido com uma voz nordestina que bradava forte: “QUÉ QUI HÁ CARECA?!” Era Luiz Gonzaga. Naquele instante, o mesmo explicou-lhe o vexame que passava. Luiz, humildemente, sem marcar distância, perguntou-lhe: “você tem o zabumba?” Ele meio acanhado, confirmara que sim, e Luiz concluiu: “então vamos tocar!”
         Por alguns minutos o REI DO BAIÃO fora zabumbeiro desse cearense da lagoa de Juvenal, Maranguape.  Após a gravação do comercial, recebia do Rei, um chapéu de couro - este que estou usando na foto-, como recordação daquele encontro. Foi o maior prêmio que um artista como ele poderia ter recebido. Um troféu inesquecível que passou a usar em suas apresentações. (Foto: Luis Gongaza tocando zabumba)

        Nos Festivais de Sanfoneiros, que perdurou os anos de 1991 a 1993, na cidade de Maranguape, sobre o auspicio da prefeitura daquele município. Projeto idealizado por mim, com apoio da Rádio Pitaguary, aquele artista sempre conquistava o primeiro e segundo lugar. Ressalva-se que a comissão julgadora era formada de músicos conceituados, desses, representantes do Conservatório Alberto Nepomuceno e da Ordem dos Músicos do Brasil, secção do Ceará e de compositores e intérpretes cearenses, com Dílson Pinheiro e Carlos Castelo. Tornei-me o apresentador daquele evento que conquistou público de toda região metropolitana. Oportunidade em que conheci Carlos André, Sirano, e tantos outros artistas que ali alegraram a grande multidão, antes da apresentação do festival tão esperado por aquela gente que tomava a Praça Capistrano de Abreu, localizada, no “coração” de Maranguape.(Foto: Este chapéu que estou usando, Careca recebeu do Rei do Baião).

       Careca nasceu na Lagoa de Juvenal, Maranguape, em 28/08/1928. Seu pai era músico, tocava violão e rabeca. A exemplo de muitos sanfoneiros começou a tocar com sete anos de idade. A experiência primeira foi no violão, posteriormente começou a tocar sanfona, não mais deixou o oficio. Não gravou nenhum disco, em contra partida, na década de 90 gravou algumas composições suas, no estúdio da Rádio Pitaguary, posteriormente o radialista Rômulo, da FM Universitária, também gravou parte do repertório de Careca.  Até junho de 1998 tocou com sucesso em grandes eventos. Ainda naquele ano, submetera-se às pressas a uma cirurgia que lhe deixara abalado fisicamente. Mas atendera meu convite para se apresentar no Auditório do Sesi, em Fortaleza, quando no lançamento do canal da TV FUTURA, parceira desse órgão Social da Indústria do Ceará.  Sua última apresentação em público. No inicio de dezembro de 1999, foi internado às pressas com complicações de saúde, vindo a falecer no dia 17 de dezembro daquele ano. Homenagens lhe foram prestadas pelos sanfoneiros Clementino Moura, Rodolfo Forte, dentre outros músicos admiradores daquele velho tocador.

       * Em 1990 saía da Ceará Rádio Clube e ingressava na também dileta equipe da Rádio Pitaguary, em Maracanaú-Ce, região metropolitana de Fortaleza, emissora do empresário Roberto Pessoa, hoje político conceituado no certame cearense. Apresentava de 6h às 8h, o programa Canto Sertanejo, forró pé-de-serra, intercalado de notícias e entrevistas. Aos domingos de 10 às 12h, o programa Rancho Alegre, um encontro com sanfoneiros e artistas da terra. Em 1992 passou a apresentar também o programa A Noite é Nossa de 21h às 00h, musical eclético, bate papo com o ouvinte e a notícia. Continua apresentando o programa Canto Sertanejo.